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UM CARNAVAL DE PRESENTE PARA SEMPRE

Carlos Augusto de Albuquerque

O manhumiriense Carlos Augusto de Albuquerque é jornalista e apresentador de TV

 

UM CARNAVAL DE PRESENTE

PARA SEMPRE...

Eu sou um menino. Tenho 12 anos.

Num domingo de carnaval, logo pela manhã, meu pai me fala:
- meu filho, hoje vamos à rua à noite, ver o carnaval.

Até então, eu estava acostumado a ir com o meu pai à missa aos domingos (às sete ou às nove da manhã) e a velórios (sim, meu pai fazia questão de marcar presença, de cumprimentar os parentes, de cumprir o ritual das despedidas).De maneira, que o convite para ir ao carnaval me soa como a possibilidade de um programa diferente.

Por volta das sete da noite, chegamos à Avenida Raul Soares. Em 1980, não há horário de verão.. A rua ganhou uns postes extras de iluminação, intercalados com postes, de onde pendem enfeites carnavalescos, de isopor, muito coloridos, impactantes.

A calçada da avenida está tomada pelo público. Apenas uma corda separa os assistentes e a passarela do samba. Muitas crianças assentam no meio fio, ao pé dos pais ou dos avós.

A primeira aparição de um bloco carnavalesco na minha vida é um acontecimento do qual nunca mais vou me esquecer: umas cinquenta pessoas, homens e mulheres, vestidas com túnicas brancas, grandes chapéus. Alguns foliões, com mamadeiras na mão, outros com chupeta na boca, alguns batendo lata, com pandeiros ou tamborins na mão.

Era a Banda Branca. No ar, um cheiro, que eu não demoro muito a perceber que é cerveja. O gosto, vou sentir só alguns anos mais tarde.

A seguir, sem muito intervalo, surgem na avenida, as mulinhas. São umas cinco. A fantasia é composta de homens enfiados numa geringonça, que imita o corpo de um jumento ou uma mula. Um enchimento de cada lado simula pernas e pés calçados com sapatos ou botas. O que dá a impressão de que realmente, os cavaleiros estão montados nas mulas e não "dentro" delas.

As mulas são uma espécie de comissão de frente do cordão Flor do Abacate. Logo atrás das mulas, vem a nega maluca, uma personagem no estilo bonecões de Olinda.

A nega maluca faz reverências à plateia, empina o peito, rodopia sem cessar pela avenida.

O povo aplaude Dona Zica, que é quem comanda o bloco. E vêm os instrumentos de percussão, a velha guarda, as damas. O Flor do Abacate passa, eu observo a fisionomia de meu pai, ele me olha com ar de cumplicidade.

Eu já sabia: o que estou vivendo chama-se felicidade.

Mas, agora fogos anunciam a entrada da primeira escola de samba. Impossível não ficar de queixo caído com tanto brilho e tanto vermelho e branco. Abdalinha e Jorge Elias soltam a voz:
- O povo vem cantando, a Estrela vem surgindo, pedindo passagem, com o coração sorrindo...Viva o São Francisco, viva Iemanjá; viva a Estrela que brilha na Terra, no céu e no mar.

Diante de mim, passam a ala das baianas, a ala dos capoeiristas, mestre-sala e porta-bandeira, a bateria e os carros alegóricos.

Neste ano, a Estrela trouxe uma cachoeira para representar o Rio São Francisco. Nesta noite, o mecanismo que iria fazer jorrar água de verdade não funciona. Ficou para a terça-feira, quando as escolas retornam à avenida.

Mas, o domingo ainda reserva o desfile de mais uma escola de samba. Na comissão de frente, homens vestidos com um fraque verde, grandes cartolas pretas.

A noite, agora, é toda verde e branca. Formigão, o puxador de samba, pega o microfone:
- Alô, minha nação verde e branco! Olhe o Pinguim aí, pisando firme na avenida!
O mundo do circo está todo ali: malabaristas, acrobatas, bailarinas, mágicos, bichos.

Uma ala, em especial, me faz arregalar os olhos: é a ala dos palhaços. Samba no pé e coreografia bem marcada. Sou um menino de doze anos. Essas imagens não vão mais sair da minha cabeça.

Volto pra casa cantando:: - "O palhaço trapalhão, chega fazendo caretas, piruetas pelo chão! O palhaço trapalhão, chega fazendo caretas, piruetas pelo chão!"


De vez em quando, os dois refrões se misturam: - Viva o São Francisco, viva Iemanjá, viva a Estrela, que brilha na Terra, no céu e no mar e o palhaço trapalhão, chega fazendo caretas, piruetas pelo chão.'

Em 1980, em Manhumirim, é assim: o povo vem cantando, Banda Branca, Flor do Abacate, Estrela e Pinguim vêm surgindo, e eu fico pra sempre, com o coração sorrindo.

TEXTO: Carlos Augusto de Albuquerque

Publicado em 14 de fevereiro de 2015

Erondino, o Dino Preto,era o grande líder do Cordão Flor de Abacate

Dona Zica Chaves (à direita na foto) conseguia ajuda de amigos e colaborava com a parte financeira do Bloco Flor de Abacate

Dona Ziláh Chaves Correa - grande destaque da Escola de Samba Pinguim

Dona Zica Chaves - a carnavalesca dos pobres

As mulinhas, o boi e a nega maluca ficaram marcados na lembrança de muitas crianças e até hoje são referências de cultura e tradição do carnaval de nossa cidade

O Pinguim, símbolo da escola verde e branco, confeccionado pelo artista plástico João Rosendo

Grandes carros alegóricos e muita criatividade da escola de samba Pinguim

A escola de samba Estrela brilha nas boas lembranças de nosso povo até hoje

O Bloco Flor de Abacate abria o carnaval com suas cores verde e amarelo

A banda FURIOSA acompanhava o bloco Flor de Abacate e tocava depois no BALAIO DE GATO

Furmigão, o intérprete do samba da Pinguim e Carlos Fontoura o presidente da verde e branco

A Escola de Samba EM CIMA DA HORA era a grande representante do Bairro Santo Antônio

A família do Sr. Manoel Vidal era a grande força da EM CIMA DA HORA

Manoel Vidal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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